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Ciberativismo: clique para salvar o mundo

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Com um clique é possível plantar uma muda de árvore ou assinar uma petição contra o desmatamento da Amazônia. Conheça o ciberativismo.

 Por Daniela Braun editora do IDG Now! e Cauã Taborda especial para o IDG Now!*

Colaboração, um dos sinônimos da Web 2.0, não é um termo novo para os ativistas. Com a popularização da internet, em meados da década de 90, a facilidade de conectar pessoas de diversas partes do mundo, promover discussões e mobilizá-las mais rapidamente por um causa ambiental, social ou política deram origem ao ciberativismo.

Hoje, a grande rede oferece uma série de canais e ferramentas para quem deseja abraçar uma causa. Com um clique é possível plantar uma muda de árvore no Brasil, enviar um e-mail direto ao primeiro ministro do Iraque, ingressar em uma regata rumo a Guantánamo, assinar uma petição contra o desmatamento da Amazônia, enviar sua foto em uma campanha mundial contra o desarmamento ou organizar uma manifestação em praça pública de um milhão de pessoas.

Com mais de 60% de seus colaboradores vindos da internet, a organização não-governamental Greenpeace pratica o ciberativismo desde 1998. "Naquela época, nós passávamos as mensagens para nossas listas pessoais e todo mundo mandava do seu próprio e-mail direto para o presidente [da República]. Se podíamos passar correntes de orações, poderíamos também mandar mensagens para um político pedindo que ele fizesse seu trabalho em prol do meio ambiente também", lembra Mariana Schwarz, gerente de marketing de relacionamento do Greenpeace Brasil.

Com o suporte de uma ação virtual, segundo Schwarz, em 2006, o Greenpeace colaborou para a criação da "Moratória da Soja", que impede a comercialização da soja cultivada em áreas de desflorestamentos no Bioma Amazônico. Por meio das filiais européias da ONG, foram enviadas cópias do relatório "Comendo a Amazônia" para pressionar a rede McDonald´s, que na época comprava soja cultivada na região pela Cargill. "Isso resultou em um acordo entre o McDonald´s e a Cargill para que, durante dois anos, não se plantasse soja na Amazônia, que é um dos principais vetores de desmatamento da nossa floresta", conta.

David de Ugarte, economista e ciberativista espanhol, lembra de outro caso ocorrido recentemente na Grécia, onde milhares de pessoas foram mobilizadas via mensagens SMS para protestar contra a gestão dos incêndios que assolaram o país neste verão.

Autor do recém-lançado livro "O poder das redes" ("El poder de las redes") - segundo ele, um manual colaborativo de ciberativismo escrito a partir de discussões em seu blog e de sua experiência no movimento ciberpunk espanhol – Ugarte afirma que, mais do que os próprios incêndios, as mobilizações na Grécia reduziram as expectativas eleitorais do atual governo daquele país.

"Ao ver cada vez mais gente nas ruas, muitos eleitores estão perdendo o medo (...). Isso, por sua vez, parece ter gerado uma massa crítica opositora, que se sobrepõe aos partidos de oposição, incapazes por si mesmos de capitalizar e levar adiante o processo" avalia.

A internet, na visão de Ugarte, é uma ferramenta poderosa de mobilização, mas reflete um movimento que já se estruturava naturalmente em rede. "Se as redes das quais falamos são as que fazem as pessoas se relacionarem umas com as outras, a sociedade sempre foi uma rede. E se falarmos dos movimentos de ativistas, eles também sempre estiveram aí, relacionando-se uns com os outros em uma espécie de universo ‘hiperativo’ e paralelo", comenta na apresentação de seu livro, finalizado em 29 de agosto, que conta com uma versão online e outra em papel.

Para a ONG WWF (World Wildlife Fund), a internet é uma poderosa ferramenta para unir forças entre os mais de 5 milhões de colaboradores independente da localização. “A idéia é sempre que possível reunir os ciberativistas dos mais de 100 escritórios do WWF no mundo nas campanhas”, afirma Fernando Zarur, especialista em conteúdo web do WWF Internacional. Por meio do portal Passaporte Panda, por exemplo, um brasileiro pode assinar uma petição online contra a poluição do Mar Báltico.

Quando se trata de uma ação mais específica em alguma região do Brasil, por exemplo, o banco de dados da organização oferece mais de 80 mil nomes, que podem ser convocados por região. "Além de colaborar, o participante pode usar a ferramenta virtual para somar pontos pela sua participação e acompanhar os resultados de suas ações pela rede”, detalha Zarur.

Nada de modinha


Para a estudante de 20 anos Tais Rodrigues de Almeida, o envolvimento com causas ambientais não é moda. “Já escutei isso muitas vezes, mas ignoro e sigo em frente”, diz. A estudante do segundo ano de Relações Internacionais na PUC-SP começou seu envolvimento com o meio ambiente há cerca de dois anos, participando de ações ciberativistas. Há dois anos, a relação com o meio ambiente se estreitou e Tais passou a ser voluntária do Greenpeace e da SOS Mata Atlântica, participando de várias ações, manifestações e projetos como os de educação ambiental.


Segundo a estudante, participar dessas ações não prejudica seu tempo, já que faz com prazer as atividades que segundo ela ainda não são ideais. “Dá pra melhorar muito”, acredita a ciberativista, que sugere maior divulgação das iniciativas online nesta área no Brasil.
O engajamento de Tais vem de berço. Seu pai é ligado às questões ambientais e trabalha na Secretaria do Meio Ambiente. O prédio de Tais faz coleta seletiva e de certa forma todos acabam participando. “Tento envolver meus amigos, família e conhecidos”.


Agilidade e redução de gastos

 

Do outro lado da moeda, o uso da tecnologia caiu como uma luva para organizações não-governamentais, que contavam com poucos recursos para divulgar e promover suas ações. "Imagine o esforço que era fazer um abaixo-assinado e conseguir um milhão de assinaturas pela despoluição do Rio Tietê, em 1991, com gastos para mobilizar pessoas, mídia, ambientalistas e personalidades", lembra a jornalista Malu Ribeiro, coordenadora de projetos de gestão e recursos hídricos da Fundação SOS Mata Atlântica.



"Hoje, você monta uma petição online, encaminha para várias listas e ainda tem um programa que envia automaticamente um e-mail para os políticos e autoridades responsáveis. É um acesso, que favorece o exercício da cidadania, além de ser muito mais fácil e barato", compara.

Em 1996, quando decidiu experimentar a internet para criar o projeto Rede das Águas, voltado à conservação de recursos hídricos no País, Ribeiro lembra das dificuldades financeiras para participar de reuniões no Comitê de Bacias Hidrográficas, em Brasília (DF), representando a sociedade civil, para discutir a transposição do Rio São Francisco. "Como podíamos acompanhar as políticas públicas se não tínhamos lobista e sem contar com uma bancada ambientalista? Então decidimos trabalhar em rede", conta Ribeiro.



Uma das ações virtuais de sucesso, segundo a jornalista, foi garantir acesso de ONGs e universidades à alocação de recursos do Fundo Estadual de Recursos Hídricos de São Paulo, o Fehidro, por meio de campanha online, que colaborou com a alteração da lei do Fehidro, em 2000. "Fizemos uma coisa bem caseira. Montamos uma sala de chat, convidamos deputados para as discussões online, enviamos e-mails etc."


Graças à internet, segundo Ribeiro, foi possível aproximar 7.500 cidadãos do controle de qualidade de 315 pontos hídricos de São Paulo, pelo projeto da Rede das Águas. Pelo site, o interessado faz um cadastro na rede de controle, aprende a coletar e analisar a água em sua comunidade. Com os resultados práticos, a rede de ciberativistas tem poder de pressionar autoridades pela despoluição de rios e córregos.



Não basta clicar


Abraçar uma causa com um clique já é um bom começo, mas o ciberativismo não deve se resumir à internet, afirmam Martha McCaughey e Mike D. Ayers, autores do livro "Cyberactivism: Online Activism in Theory and Practice" (Editora Routledge, 2003).


Na visão de McCaughey, professora de Estudos Interdisciplinares da Universidade Estadual Appalachian, na Carolina do Norte, nos Estados Unidos, geralmente, as pessoas se engajam tanto no ativismo online como no "tradicional". Para ela, as vantagens do ativismo online são a velocidade e o alcance proporcionados pelas comunicações via internet.


"Ativistas podem se comunicar sobre o que está acontecendo usando novas tecnologias de comunicação - incluindo o celular, bem como a internet - durante um protesto, por exemplo. Eles também podem organizar um boicote muito rapidamente em relação a algo que acabou de acontecer, graças à velocidade com que conseguem envolver pessoas simpáticas a suas causas", avalia.

"A internet é ótima no sentido de prover uma fonte de fortalecimento e embasamento para as pessoas e - se você tiver acesso a ela - fornecer uma série de informações e ferramentas, para enviar mensagens pelo mundo afora", afirma o escritor Mike D. Ayers citando, como exemplo, um dos primeiros movimentos ciberativistas praticado pelo Exército Zapatista de Libertação Nacional, desde 1994, em defesa dos índios da comunidade de Chiapas, no México.

No entanto, segundo a professora, mesmo sem a internet, os ativistas sempre usaram meios para se comunicar, que não apenas o contato pessoal. "Os ativistas sempre usaram jornais, campanhas por cartas, boicotes e outros meios para comunicar suas conquistas, organizar apoios e [promover] mudanças efetivas".


"Acredito que qualquer pessoa sempre pode ser um ativista se quiser fazer algo a respeito de um problema social. Não acho que a internet torna [a tarefa de] "ser um ativista" mais fácil do que era antes. Apesar de tudo, ser um ativista leva tempo, comprometimento e um senso de propósito sobre um objetivo político. Ativismo não é somente clicar em seu mouse ou encaminhar uma petição online."


Ayers compartilha a visão de McCaughey deixando um conselho aos ciberativistas: "Não se engane. A internet mudou o cenário do ativismo e assim como a tecnologia se torna cada vez mais barata, a habilidade de pessoas "comuns" fazerem diferença, ou mudar a percepção geral da população aumentou".


O escritor, no entanto, levanta uma questão sobre o poder da disseminação da internet para o ativismo: "Será por algo positivo ou apenas para gravar seu irmão fazendo uma nova manobra de skate e colocar no YouTube? Se este é o caso, como vamos resistir a toda a sujeira que está por aí?", protesta.



Navegando por uma boa causa*

Veja aqui algumas campanhas que buscam mobilizar ativistas online.


Contra barragens no Ribeira


Campanha lançada pelo Instituto Sócio Ambiental (ISA) pretende conscientizar a população sobre os problemas na implantação da barragem de Tijuco Alto, para geração de energia elétrica. O site oferece selos para serem colocados em sites e blogs, divulgando a campanha e informando a população. Mapas interativos foram criados para mostrar a devastação que seria causada com o funcionamento da usina, informações sobre a região e as comunidades ribeirinhas que seriam diretamente afetadas.


Contra a morte de mulheres por crimes de honra

A Anistia Internacional mantém uma campanha contra a violência causada às mulheres no Iraque, onde os ciberativistas podem enviar uma carta ao Primeiro Ministro Iraquiano Nuri Kamil al-Maliki. A campanha pretende exigir uma maior ação do governo para impedir casos como o de Du'a Khalil Aswad, uma garota de 17 anos apedrejada até a morte, acusada de cometer um “crime de honra”, que foi ter se apaixonado por um rapaz.

O clique que vira uma árvore

O Projeto ClickArvore da Fundação SOS Mata Atlântica transforma os cliques em seu portal em mudas nativas, reflorestando áreas de mananciais e de preservação ambiental. O estado mais beneficiado com a campanha é São Paulo, com 69,9% de participação e 3,820 hectares reflorestados. Qualquer um pode doar uma muda, basta clicar e já estará ajudando a preservar o ecossistema com maior biodiversidade do mundo, a Mata Atlântica.

Passaporte Panda

A WWF-Brasil oferece o passaporte panda, um cadastro no sistema da organização que dá direito ao internauta de participar das várias ações do WWF pelo mundo, enviando e-mails para autoridades, sendo convocado para passeatas e ações, tanto na internet como no mundo físico.

Um milhão de rostos contra o armamento

O projeto Control Arms é uma petição visual para demonstrar a preocupação das pessoas em relação às armas e guerras, manifestando sua opinião contrária à violência. Mais de um milhão de pessoas já mandaram seus retratos, mostrando sua opinião contrária às guerras e armas de fogo.

20 anos de Césio-137

O Greenpeace, em seu painel de ciberativismo, lança uma nova campanha exigindo que o governo tome medidas mais sérias relacionadas à energia nuclear. Qualquer pessoa pode enviar uma carta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, manifestando sua opinião contrária à implantação da usina nuclear de Angra 3. A campanha relembra o incidente ocorrido há 20 anos, onde moradores de Goiânia encontraram uma cápsula do elemento Césio-137, altamente radioativo. O incidente ocasionou a morte de 60 pessoas e a contaminação de outras seis mil.

Rumo à base de Guantánamo

Uma ação criativa e interativa pretende fechar a base militar de Guantánamo, alegando que seus prisioneiros são tratados de maneira desumana, não tendo muitas vezes nenhuma relação com o terrorismo. Basta criar um avatar, escolher um meio de transporte e juntar-se a outros participantes do mundo todo em uma regata rumo a Guantánamo. Até o momento 30,651 pessoas criaram seus avatares para exigir o fechamento da base militar.

*Colaborou Daniela Moreira, repórter do IDG Now!


Created by malu
Last modified 2007-09-05 16:57
 

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